Por que escrever à mão ainda importa: minha experiência com journaling e Zettelkasten

Por que escrever à mão ainda importa: minha experiência com journaling e Zettelkasten

Publicado por Ligia Vizeu Barrozo

Em janeiro de 2025, comecei a tomar notas diárias. Era assim que eu chamava essa nova prática que, para mim, não era um simples registro dos acontecimentos do dia. Não era o diário da adolescência. Eram notas feitas logo ao acordar, onde eu anotava o sonho da noite anterior, agradecimentos, o que tinha feito depois do trabalho, algo que estivesse me animando no momento, o que eu gostaria de realizar naquele dia e até aquilo que eu precisava encarar, mesmo sem vontade.

Fiquei realmente empolgada com minhas notas diárias. Usei o Obsidian para registrar tudo no meio digital e até criei um template para facilitar. Preciso confessar que funcionou apenas até o começo de março, quando as aulas do semestre começaram. Foi uma experiência curta, mas interessante.

Por que abandonei o hábito

Quando penso no motivo de não ter conseguido manter o hábito, a primeira resposta que me vem é a falta de tempo. Mas sei que isso não é totalmente verdade.

Quinze minutos durante o café da manhã seriam suficientes. Então por que não consegui? Depois me lembrei de algo que sempre me incomodou: o fato de estar no computador.

Não que eu tivesse algo a esconder, mas sonhos, impressões e reflexões são íntimos demais. Acredito que sejam até mais pessoais do que um nude, porque revelam a essência. E isso é o que temos de mais íntimo. Escrever à mão seria mais seguro nesse sentido, embora não completamente inviolável.

O que descobri sobre journaling

Trago esse assunto porque, recentemente, minha filha apareceu dizendo que queria começar a fazer journaling. Minha primeira reação foi pensar que journaling seria apenas um diário. Tenho visto muita gente falar sobre isso, mas sempre associei à ideia de diário tradicional. Fui investigar.

Descobri que o journaling pessoal não é exatamente o relato dos acontecimentos, mas uma escrita reflexiva, muito parecida com o que eu chamava de notas diárias.

Os hábitos de journaling e de escrever à mão têm sido reconhecidos como práticas saudáveis para o cérebro, especialmente agora, quando o excesso de informação prejudica nossa capacidade de retenção.

Pesquisas mostram que o volume de informação que consumimos em um único dia supera tudo o que uma pessoa comum teria acesso ao longo da vida em épocas pré-digitais.

O retorno ao papel como resposta ao cansaço digital

Nesse contexto, muita gente está voltando às agendas físicas, aos diários de gratidão, de sonhos e de humor, às cartas e cartões afetivos, aos cadernos de estudo, às listas temáticas, ao journaling e aos bullet journals. Esse movimento é uma resposta ao cansaço digital, à busca por foco, aos benefícios cognitivos, ao bem-estar emocional e à valorização do artesanal.

O que é o método Zettelkasten

Mesmo assim, embora a escrita à mão traga ganhos incríveis, manter um sistema inteligente de armazenamento, algo próximo de um segundo cérebro, é fundamental para quem valoriza o próprio repertório. O método da caixa de notas analógicas, conhecido como Zettelkasten, criado pelo sociólogo alemão Niklas Luhmann nos anos 1950, começou a ganhar popularidade a partir de 2019, impulsionado por blogueiros e criadores de conteúdo sobre produtividade. A pandemia acelerou ainda mais esse movimento. Ferramentas como Obsidian e Roam Research, lançadas por volta de 2020, deram nova vida ao método.

Para quem não conhece, o Zettelkasten original consiste em um sistema de anotações em fichas de papel, cada uma contendo uma única ideia, guardadas em caixas de madeira. As fichas são conectadas entre si por referências cruzadas e organizadas por um sistema de numeração que permite inserir novas ideias sem perder a ordem. O sistema cresce de baixo para cima. Ideias conectadas geram ideias novas.

No digital, o Obsidian faz isso automaticamente com links bidirecionais e visualização em grafo, revelando agrupamentos e relações inesperadas.

Como integrar journaling e Zettelkasten

E por que comecei falando de journaling e terminei no Zettelkasten? Porque a conexão é mais natural do que parece. Ambos ajudam a organizar pensamentos.

Fazer journaling à mão e depois transformar essas reflexões em notas digitais no Obsidian, conectando-as por links, me parece uma base sólida para um sistema híbrido que aproveita o melhor dos dois mundos.

E, se digitar tudo depois parecer perda de tempo, há alternativas. Você pode escrever à mão e depois ditar suas anotações no WhatsApp, copiando o texto para o Obsidian e criando as conexões e tags.

No fim das contas, talvez o segredo não seja escolher entre papel ou digital, mas permitir que um complemente o outro. E quem sabe, com essa nova perspectiva, eu retome minhas notas diárias.

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